domingo, 25 de fevereiro de 2018

O quintal de Adélia Prado

Ah! o quintal de Adélia...
Natureza? Está lá.
Mato? Com certeza.
Adélia? Sábia. Simples. Inteira. Intensa.
Poeira no único lugar em que é bendita: quintal.
 
Não sei quanto de meus sonhos
amontoei no quintal de Adélia Prado.
Muitos cavei.
 
Quem me dera uma tarde ali,
vendo o sol entrando por entre aquelas cercas de bambu,
sentindo o mundo entrando sem cerimônia,
em nesgas generosas de luz.
Que cenário é mais apropriado para uma poeta da vida?
O cotidiano curvando-se à vital sombra de árvore,
as sementes brotando a céu aberto,
céu pejado de pássaros,
a lua em sua longa estrada curva,
solta e cheia sobre a cabeça...

Plasmei o quintal de Adélia no mais seguro pensamento.
De vez em quando, fecho meus olhos com um sorriso franco
e - mas ela não sabe - vou entrando com a Ave Maria.
Sentamo-nos ali, na tardinha das coisas,
Eu, a Poeta, o Universo em Poesia.

Morrer não é o fim

Pois é...
Um dia sempre nasce depois do outro. Mudanças? O velho Camões já nos dizia: “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades... Todo o mundo é composto de mudança”. Sim, são muitas as mudanças: um dia é cinza, o outro é dourado de sol, uma manhã traz gorjeios de passarinhos, gritinhos de maritacas, e a outra manhã nasce ao som da chuvinha caindo nos telhados. Toda a vida, em todo o tempo, é movimento.

As plantas vão nascendo devagarinho das sementes... A gente vai crescendo, crescendo... Nosso corpo é uma movimentação impressionante. No cérebro, bilhões de neurônios dão conta do que somos, do que sentimos, do que fazemos, num constante processar de dados e dados... Nossas células da pele se renovam todos os dias. Nossos pensamentos se modificam... Nós todos, num dia, aqui chegamos e em outro partimos deste mundo... sempre o movimento! Nada para! Nada permanece do mesmo jeito, no mesmo lugar: nem os sonhos, nem os tempos... O Espírito também não para jamais.

“A morte não é nada”, “morrer é apenas passar para o outro lado do caminho”, disse Santo Agostinho. E se pensarmos com alguma calma, concordaremos que morrer não é estranho, mas sim continuação, outra fase do processo daquilo que nunca para. Do outro lado do caminho, há estradas, há companheiros de caminhada que alegremente reencontramos, há serviço e aprendizado. Lá também a esteira do movimento! E no movimento, de lá viemos, como daqui saímos, cumprindo a nossa muito longa jornada. Foi, é e será assim para todos os humanos.

Alguém querido partiu? A saudade, o carinho, a ternura, a amizade são sentimentos muito compreensíveis e não lhes fazem nenhum mal lá onde agora se encontram. As preces pedindo luz e amparo são das melhores atitudes que podemos tomar após a partida de um ser querido. Por outro lado, o desespero, a revolta, o medo, a intranquilidade, a rebeldia, tudo isso acaba por atrapalhar o desenlace daquela alma que, feito borboleta, está se soltando do casulo e precisa voar com leveza rumo à luz.

A vida é isto: estamos neste mundo apenas de passagem. Muitos acreditam que, do outro lado do caminho, está a vida eterna. Outros, que o processo é contínuo e recomeça sempre. Na verdade, nesta hora, não importa tanto como vemos a questão, importa que não podemos mudar as leis da natureza. Não podemos parar nem interromper nem reverter o processo. Podemos apenas pensar, orar, pedir a paz e a iluminação divina antes, durante e depois da necessária travessia. Pensemos com carinho imenso naquele que se foi, mas saibamos que é este o seu destino: a luz!

Não fazemos bem algum teimando em lhe dificultar as coisas, esticando algum sofrimento. Precisamos, com maturidade, aceitar as coisas como elas são, ainda que sentindo muita, muita dor. Assim, por mais que a tristeza nos assalte, e ela é para nós natural nos episódios de partida, não dificultemos a passagem do ente querido para a liberdade. Que tudo façamos para que ele, um Espírito imortal, possa se desligar com mais felicidade das nossas dificuldades de consolo, da nossa sensibilidade e do nosso fraco entendimento. Caro amigo, nós que ficamos ainda precisamos ficar; os que se foram estão apenas do outro lado, já voltaram para a casa de onde todos viemos. Também nós iremos para lá, quando cessada a viagem. Se cá ficamos, nossa missão ainda demanda tempo e ações por aqui mesmo. Richard Bach tem um belo pensamento sobre isso: “Eis um teste para saber se você terminou sua missão na Terra: se você está vivo, não terminou.”

Pensemos sempre, então, em destinar ao parente, ao amigo toda a força! Saibamos, pacificando nossos corações, que “cada lagarta tem seu tempo de casulo e seu tempo de ser borboleta. Não há como forçar e nem como acelerar os tempos...” São leis naturais, as que dirigem nascimentos e renascimentos. E então, lembrando-nos dos inúmeros bons momentos que juntos tivemos, trabalhemos no íntimo, a cada dia e com mais convicção, as raízes intelectivas da fé, a esperança pacificadora, lúcida e inequívoca de que um dia, cedo ou tarde, na outra dimensão, nos reencontraremos e de novo partilharemos da sua companhia feliz na incessante caminhada.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

No caminho para a luz


O sair à luz é um divisor de águas em nossas vidas. Enquanto não sai, as sombras projetadas continuam a simular verdades, e os condicionamentos continuam agrilhoando o ser numa clausura, como acontece com os prisioneiros no “Mito da caverna”, de Platão. Aquele que se solta dos grilhões e, do lado de fora da caverna, contempla toda uma imensa e fértil realidade, ao retornar com notícias tão frescas e altas será mal compreendido pelos cativos que não desejam sair da mesmice e da costumeira escuridão. Machado de Assis, grande conhecedor do homem, entendia plenamente essa condição humana e disse bem: “Nós temos medo da luz, por isso a empanamos de fumo e vapor”. É o que ainda fazemos, enclausurados em pensamentos sem asas e sem retinas, cumprindo rotinas sem metas e sem claridades sublimadas.

A ideia do iluminar-se é, como no mito, profundamente pessoal, não sendo séria se não ocorrer no íntimo do indivíduo. A luz do interior de uma pessoa, por mais íntima que essa pessoa nos seja, não poderá iluminar nossos pensamentos, ou modificar nas bases a nossa maneira de pensar. Se queremos chegar à luz, será indispensável o caminhar até ela, no nosso próprio túnel, com nossos próprios passos. Só poderemos alcançá-la com o nosso andar, nosso olhar, nossa investigação – e mais: com nossa intuição.

Se saímos da prisão, em busca da luz, por mais nos encante, a verdade do outro que está na vanguarda não pode nos satisfazer, pois, embora cative, não nos abrasa essencialmente a alma. Não podendo o outro nos dar a sua luz, porque ela se incendiou em suas ideias, segundo suas buscas e de acordo com o seu conhecimento singular, seus exemplos coerentes podem ser para nós como um raio de luz, uma tocha que nos ajudará numa parte mais nebulosa do caminho.

Caminhar para a luz requer esforço pessoal  no exercício de limar e polir as retinas, despregando também dos nossos discursos os discursos outros que não têm raízes em nós. Requer, assim, cuidadosa sondagem do terreno em que os entendimentos se desconstroem e se reconstroem em nós, em cada momento vivido.

Parece-me que o "Mito da Caverna", pela analogia que tem com os processos de abertura e de renascimento intelectual, é e será sempre atual. Os poetas, os religiosos, os filósofos, os estudiosos já falaram e falarão dessa passagem da inconsciência para uma vida mais consciente, ou da ignorância para a sabedoria. Muitos trarão notícias dela, como Cora Coralina, que nos lembra que o saber a gente aprende com os mestres e os livros, enquanto a sabedoria a gente aprende é com a vida e com os humildes.” Sim, Coralina, porque na humildade é que a lida mais belamente nos ensina.

Ah, os suspiros!

Um conhecido meu, que tem por hábito viver entre a verdade e ficção, diria que Dom Pedro I, ao chegar às margens do Ipiranga, suspirou. E o povo heroico teria suspirado depois do retumbante brado. Essas ideias que não se oficializam nos documentos sempre me são mais profundamente interessantes do que os fatos altivos, muito vigiados, sobre os quais, em uníssono, sabemos repetir tantas palavras... O mundo parou para eu imaginar o suspiro, num peito largo de imperador.  

Bonito, isso. Bonito caber tanto em um suspiro: palavras, sonhos, desejos, medos, perdas, vitórias... Aviso: eu sempre me acho-perco nesses mergulhos lúdicos. Foi uma aluna que me disse isso, outro dia. Eu mesma não sabia. “Professora, você é lúdica”. Poxa! Uma menina, metade de mim na idade! Suspirei, sorvendo toda a frase e o gosto raro que ela tinha. E suspirei tão longamente que ainda trago desse feixe de ondas sonoras alguns ecos.

Seria o suspiro a identidade instantânea e flagrante do sentimento, seu retrato mais fiel ou menos fingido? Suspiro! Suspiro, porque há muito eu sei que ar demais não anda cabendo em mim, veloz nem comprido... Urgente tem sido eu viver com menos...

Um suspiro meu – quem diria?! – ar tão íntimo e invisível, certa feita sorvia um perfume feliz que enviesava o dia, lembrando aos meus sonhos, tão cansados de cheirar ausências, que há aromas e horizontes nos longes deste tempo, além de alguma fronteira... Meus suspiros conhecem bem a seda com que há muito costuro solitária a eterna colcha de sonhar Ulisses, bordando os dias com os horizontes e as cores das gentes que passam. Na solidão, brinco de imaginar e des-imaginar o comboio aéreo que me entra, tira e põe o trem de encantos e desencantos em suave trilho. Ludismo...

Ia franzir a testa agora, para dissertar seriamente sobre o suspiro, mas antes de dar corda na velha caneta velha, me peguei suspirando preguiçosamente... Então, moleca, deito a pena e desisto. E reflito também sobre isso. Vejo que... sim, há um suspiro antes das decisões. Se não o suspiro, corro o risco de não somar todos os fios dos pensamentos, deixando no vazio de fora uma nota desesperada, de tão só e de tão solta. 

Mas o suspiro – eu devia contentar-me com o suspirar, coisa minha tão alta e funda, e calar estas palavras que não o explicam –, mas o suspiro, eu dizia, começando lento e subindo cheio, me lembra uma delicada bolha de sabão: curta e cheia; perfeição do instante; explosão da mais linda e inteira redondeza. Que leveza o tempo e o ar, voando um dentro do outro!... Eu, que amo coisinhas e miudezas, ponho meus olhinhos de criança no redondinho desse brinquedo que navega as curtinhas possibilidades e as surpresas. Eu me sei bobinha assim, encantada, suspirando o cheiro bom daquilo que passa, ainda que do meu lado uma voz de alfinetes me venha dizer que uma bolha é só uma coisa “imprecisa, nem sólida nem líquida”, como naquele conto de Lygia. Mas... e o que dentro dela voa e fica?

O quebra-cabeça

A imagem de um quebra-cabeças em construção me é muito instigante. Peças, peças, peças... Partes unidas de tal modo que revelam uma tela Inteligível ao final, se todas as partes necessárias estiverem dentro da caixa.

Thomas Kuhn, em seu A estrutura das revoluções científicas, chama a atenção para o quebra-cabeças das questões científicas em que as peças são as regras e os passos para a solução de uma questão.

Mas o que acontece ao cientista, frente à intenção de montar um dado quebra-cabeças, se as suas peças se encontram misturadas com outras de disciplinas diversas da sua? Ele “será colocado em xeque”, porque não há solução possível juntando-se as peças de uma só caixa. Em outras palavras, não há solução possível àquele que não se dispuser a entender que as peças para aquele problema se encontram em mais de uma caixa. Logo, se aquelas partes encontradas são insuficientes para a conclusão do todo, diz Kuhn, o problema estudado é rejeitado, porque a ciência normal não se dirige para as novidades.

É assim, conclui o autor, que um paradigma pode afastar uma comunidade dos problemas sociais importantes que não são redutíveis à forma de quebra-cabeças – entendido como um todo dividido num número “x” de peças, nem uma a mais ou a menos.

Felizmente, não é o fim do mundo: em dado momento, uma nova teoria surge justamente do fracasso das anteriores e a crise abre espaço para um novo paradigma. Algumas peças surgem, vindas de outras caixas. Kuhn diz ainda que também no desenvolvimento político, “como no científico, o sentimento de funcionamento defeituoso, que pode levar à crise, é um pré-requisito para a revolução”. Uma nova mirada torna-se possível, então, a partir do conflito com as visões anteriores ou da aceitação de um fato novo, ou não mais negligenciado. É o pensar fora da caixa. 

No sentido figurado, usado no nosso cotidiano, a expressão "quebra-cabeça" significa “aquilo que preocupa, inquieta ou incomoda alguém”, ou aquilo que configura um “problema complicado”, cheio de questões para a gente resolver. No quebra-cabeça das coisas da vida que buscamos entender, nas perguntas mais profundas e essenciais que precisamos fazer, as peças para a construção de uma boa paisagem-resposta, do tipo que elucida, ilustra e consola, estão todas nas caixas que temos nas mãos? Será que estão?


Podemos fazer mais por nós


Há no correr dos dias algo que com lentes comuns ou distraídas não podemos vislumbrar. Hipnotizados pela rotina e pelo imediatismo, não é plausível esperar que venhamos a colher aprendizados criteriosos e conscientes, que ampliem os limites da felicidade pessoal, se não nos dispusermos a observar. Pessoas como nós estão nos ensinando diariamente a caminhar rumo à luz. O que nos impede de desenvolver a força de caráter que os já despertos revelam em suas escolhas e ações tão felizes? Por que nos demoramos tanto na escolha desse caminho?

Pessoas há que se dedicam intensamente à observação dos fatos, das próprias emoções e sentimentos, e com isso refletem, meditam, aprendem, e, com seus pensamentos e atos, influem belamente na qualidade dos seus dias. Paralelamente, quantos seguem sem meta, nada criando de belo para si, acostumados com uma vida repetitiva e tosca?

Algumas histórias vinculadas em mídias sociais puxaram os fios destes meus raciocínios. Vez e outra se publicam ocorrências dignas de reverência e respeito, sobre pessoas que se sobressaem no meio dos cotidianos mais densos: é um jovem de condição social menos favorecida que a todos surpreende com brilhante aprovação em concorridos vestibulares, ou que conquista medalhas em difíceis olimpíadas estudantis; é um milionário que não se furta a um trabalho humilde, com acurado sentimento de dever moral; é a criança que se comove com injustiças e dores alheias e sensibiliza o mundo com alguma atitude de profunda e madura solidariedade... Quantas vezes vemos alguém resgatar do lixo, além do alimento com que se sustentar, um livro roto com que supre a fome de saber? De onde vem essa chama, essa sede de conhecimento que transforma o ser? Imagino com que legítimo prazer essa pessoa deve se debruçar sobre as páginas úmidas de um livro jogado no tempo, sorvendo-as na solidão dos seus desejos de ascensão e vitória, saciando seu anseio de aprender! Que força interior tem um ser como esses? Já pensou nisso? Eles são especiais? Ou essa força tem princípio comum em todos nós?

Se menos preocupados com os louros do mundo, podemos, nós também, investir em aprendizados que nos diferenciam da grande mole humana, à qual saberemos por nossa vez, e na medida do nosso esforço, sensibilizar, para que venha a provar de outras águas, conhecer outros interesses – conhecer prismas, aspectos, detalhes que falem ao coração, ao sentimento, lustrando os raciocínios no contato com outros temas. Faremos bem, distanciando-nos um tanto dos prazeres fáceis, do gosto barato, das luzes artificiais, das aparências, da rotina miserável das coisas sem graça ou sem sentido, das coisas, enfim, que nunca sustentam verdadeiramente um ser humano. Temos, cada um de nós, essa força interior latente. Temo-la em gérmen, e sentimos que ela vibra, quando nos sensibilizamos com alguma boa história, com algum exemplo amoroso ou terno ocorrido fora de nós.

O ser que reserva alguns momentos de reflexão e estudo maduro, rompendo as malhas da fantasia e da distração ininterrupta e irresponsável que o tenta sufocar, faz uma escolha diferenciada e exercita nos dias o livre-arbítrio, acordando as sementes das potencialidades que lhe dormem ocultas.

Ao nosso alcance, muitas coisas há que não exigem de nós altos voos de intelectualidade ou profundidades de raciocínios, mas que, aparentadas com as simplicidades e as essências, muito nos beneficiam interna e externamente: a conversa honesta e amiga com seres que partilham conosco da viagem terrena; a leitura de uma história digna; a reflexão sobre uma ideia feliz ou libertadora; a construção de uma nova atitude; o apreciar de um belo acontecimento; a gratidão pelas benesses, pelas lições e vitórias... Como nos faz bem aquela boa xícara de café com amigos que param para verdadeiramente se olhar, partilhando as dores e as delícias de que somos todos portadores! A vida, em seu significado maior, explode, explodirá sempre, em alturas e belezas, se ousarmos interromper a marcha angustiada ou distraída dos nossos passos cansados e lhe dermos, para sua esplêndida e natural manifestação, um pouco de tempo e lugar.

É possível viver feliz ganhando menos


Eis que, numa volta da vida, surge o inesperado: a perda de uma posição no trabalho e o salário menor no fim do mês. Entre as implicações da nova realidade, está a queda no padrão de vida, que infelicita muita gente acostumada com certas comodidades. Será, contudo, que não se pode descobrir um lado bom numa fase mais contida financeiramente?
Se uma reviravolta assim nos acontecer (que tal, também, se ela não nos acontecer?), será bom fazer uma revisão do estilo de vida, dos valores e conceitos às práticas, examinando o emprego que fazemos do tempo e, naturalmente, checando a real necessidade das despesas antes costumeiras. E, porque a teoria dos acasos não nos satisfaz, será útil observar com atenção todos os recados da vida, nos tempos de vacas gordas e ainda mais no de vacas nem tanto.
Vacas magras falam da desnecessidade de se deixar fisgar pelas centenas de ofertas que as vitrines expõem para abarrotar nossos armários: potes, sapatilhas, bolsas, esmaltes e até enfeites que servem mesmo para acumular boa poeira e só. Elas nos lembram de analisar os produtos e pensar na utilidade das coisas. Se tivermos maturidade, boa vontade e um perfil que não se inclina à revolta e às queixas incessantes, uma fase financeiramente contida poderá ser também mais calma e menos estressante – ela pode trazer o tempo propício ao nosso preparo para etapas mais felizes. E possibilidades de reinventar a vida a cada dia não faltam!
·         Se, por exemplo, a ida a restaurantes ficar escassa, nem por isso teremos que sufocar o prazer de comer bem: convide amigos, prepare seus pratos em casa
Que tal descobrir o prazer de encarar a cozinha, descobrir a bandeja de temperos, abrindo o livro de receitas sobre a bancada? Alguns aspirantes a chef nascem dessas prazerosas permissões domésticas, reunindo em casa amigos que têm gosto pelos aromas culinários. Além disso, nos dias comuns, vale experimentar fugir dos açúcares e ingredientes industrializados, preparando lanches com calma, beleza, cores, criatividade, seguindo a cartela dos alimentos saudáveis, frescos – e mais em conta – da estação. Uma passadinha na feira, aliás, nos dá boa ideia de como tem gente interessada em comer bem e não terceirizar sua aventura na cozinha.

·         É hora de se preparar para dormir bem e dormir o necessário, repondo as energias que a fase mais atribulada nos roubava

A glândula pineal, responsável pela produção de melatonina (que regula o sono), funciona no escuro, quando o cérebro não está sendo excitado por sons e luzes. Se nosso sono não for de qualidade, faltará energia para muitas atividades nobres, como leitura, reflexão, pesquisa, estudo, coisas que nos favorecem com o discernimento e nos fortalecem o ânimo. Apague as luzes, desligue-se dos aparelhos eletrônicos. Durma bem!
·         Se a vida propôs uma virada, abra espaço para o conhecimento de coisas novas, mas, principalmente, para o conhecimento de si mesmo

Perguntas sobre o sentido da vida, de onde viemos, para onde vamos, o que viemos fazer neste Planeta, são das mais importantes que o ser humano precisa fazer. Se não o fizer, as asas do pensamento, da criatividade, da serenidade, da compreensão, da paz interior não se desenvolverão a contento. Dê ouvidos à voz interna que certamente já lhe provocou com esses assuntos.

Um amigo engenheiro trabalhava freneticamente por mais de 15 horas no dia, agitando-se entre as várias obras que acompanhava, até que, surgindo um problema no joelho, viu-se obrigado a se poupar bastante. Vendo-o chegar, então, com seu novo andar lento e cuidadoso, um operário lhe desferiu este pensamento cheio de lapidada sabedoria: “Isso aí é pra minguar a toada, doutor”. A genialidade da lição foi por ele imediatamente compreendida. A preocupação com o ter lhe estava sequestrando as horas do ser, mas a energia psíquica sempre encontra um meio de promover o impulso de que necessitamos para dar início à transformação e reconstrução de nós mesmos.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

A casa de Elise


Não era casa, era magia, a magia de madeiras lindamente trançadas.
Não era roça, era espaço largo, era tempo sem relógio, eram pássaros cheios de asas.
Nem eram paredes e telhados, mas sombras frescas num abrigo de mil sonhos, 
e muitas janelas sem medo da luz: tudo se abria para o ar, para o existir, para a vida. 

Cor, flor, mato nato, mato virgem... Nem sei o que ali era mais lindo: se dos vales distantes ver esse paraíso, se desse paraíso vaguear o olhar pelos vales distantes. 

Não havia cantinho em que não passasse a graça das mãos artistas de Elise. Não havia pedacinho de chão descuidado ou triste. E, por dentro, não havia senão coisinhas que, de tão aconchegadas, acabavam parentes: livros dizendo filosofias, florezinhas amarelas encantando um frasco, esculturas irmãs, guardando um mundo de significados.  

Impressões de Fita Verde, de Guimarães Rosa

Os leitores de Guimarães Rosa sabem que o mestre mineiro, em suas obras, trabalha as várias facetas do homem sem limitá-las com o traço tipicamente regional das suas personagens. Elas viajam, ainda que em lombo de burro, para chãos estrangeiros, para paragens de nós desconhecidas, talvez nem imaginadas. Rompendo fronteiras, enfim, crescem, transcendem para além do regionalismo, caro ao autor, e avançam rumo à universalização – ao essencialmente humano, fato que, por sua vez, é caro ao médico, soldado e escritor nascido na pequena Cordisburgo, em Minas Gerais.

Em “Fita Verde no Cabelo”, o alquimista da palavra, como bem disse Eduardo Coutinho, faz, de certa forma, uma viagem “em pós”: toma o universal que já corria o mundo nas diversas versões de Chapeuzinho Vermelho e o coloca em nossas verdes matas. A garotinha é daqui e, aqui, mais usual do que o capuz é sua fita verde inventada no cabelo. A mineirinha é a mesma meninazinha nascida em cada um dos quatro cantos do mundo.

O ambiente mineiro, ou pelo menos bem brasileiro, na releitura rosiana se estabelece na imaginação do leitor quando lê o mais que existe dentro do pote de doce em calda. Todavia, que felicidade há em fixar para Fita Verde uma aldeia mineira, quando sua aldeia está em todo tempo e lugar, regional, mas transcendente? É Rosa mesmo quem o diz: “Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor”, ou seja, como nas histórias infantis, que começam invariavelmente com o era uma vez, espaço e tempo são, na verdade, irrelevantes. Isso não quer dizer, contudo, que não seja possível para enredos universais uma localização espaço-temporal, ou que eles independam do seu porta-voz. Sabemos que o escritor escreve com intenção de se fazer entender, de comunicar uma ideia. Ele é um ser localizado, social e historicamente; logo, esse “não tempo” e esse “não espaço” por onde uma garotinha vai à casa da avó não modificam o enredo; quem o modifica, segundo sua interpretação, é o autor, o recriador da história, que a reescreve segundo sua particular e singular interpretação. As variadas versões desse mesmo conto, para ficarmos só com ele, comprovam isso repetidamente. As releituras tomam um significado dogmático ou tornado corriqueiro – uma menina vai à casa da avó e é tentada (ou quase) por algum perigo no caminho – e tentam mostrar que há outras maneiras de se pensar o drama vivido pela Chapeuzinho Vermelho de Perrault e a dos irmãos Grimm. Estes, insatisfeitos, talvez, com o saliente tom moralizante daquele, difundiram uma variante da história, não mais fortalecendo a ideia final de que uma menina não deve dar atenção a estranhos, como queria Perrault. Há muito mais para ser explorado nesse caminho de passivos velhos que velhavam, percorrido pela menina que, sobejamente, leva nas mãos um cesto vazio e a enorme fome de almoço: há a vida e suas movimentadas nuanças. 

Fita Verde era a que por enquanto – uma menina, sem o suficiente juízo dos adultos que, esquecidos dos movimentos da vida, tinham as aldeias sempre quase iguaizinhas. Levava como oferenda um doce apetitoso e, no cesto vazio, a expectativa de enchê-lo de possibilidades. Enquanto tantos, de forma diversas, como Perrault e Grimm, advertiam-na do perigo solto no bosque, a Fita Verde de Guimarães Rosa não viu “lobo nenhum, desconhecido nem peludo”. E que perigo haveria se tudo por ali se queria repetido e gasto, se nada, nem as pessoas nem as avelãs se mexiam naquelas estradas? O movimento, contudo, e nos longes do tempo Heráclito já o sabia, existe para todas as coisas. Uma avelã tem seu momento de semente e num processo constante é que amadurece. Uma criança também sabe disso, e a menina divertia-se com ter nos cabelos uma fita inventada, símbolo daquele seu momento de florescimento: sabia-se menina, toda esperança, toda criatividade e curiosidade. E tanto é movimento e surpresa a estrada da vida que o lobo maldito lá não estava, na temida curva do caminho. Há muito ele morava no medo imaginário dos lenhadores. E esse medo, para Rosa, era medo da vida.

A aldeia estava depois do moinho que não há; era, então, a aldeia da imaginação. O caminho até ela bifurcava-se: havia o louco e longo; havia o encurtoso, comum, igual, com lobos previamente exterminados. Enquanto Chapeuzinho Vermelho seguiu obediente pelo caminho mais curto, Fita Verde seguiu, com suas asas ligeiras, pela estradinha mais fresca e criativa, que a gente pensa que vê, que a gente não vê que não é, com lobo nenhum. Os lenhadores eram castradores de vitalidades e derrubaram o perigo, extirpando o lobo – que era medo e, também, objeto de desejo, como o doce em calda que a menina trazia. É que se mantinham “todos com juízo, suficientemente”. Aparece aí a eterna história “da luta entre o bem e o mal. Se, contudo, olharmos também para além dessas antinomias, no ilimitado pensamento de Guimarães Rosa, avistaremos o que tem de mais belo e rico: uma terceira margem para os movimentos e para as soluções, uma terceira hipótese para a vida.

Fita Verde chegou à casa da avó, que “difícil disse: ‘Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe’”. A inversão “entra e abre” só à primeira vista é ilógica: pode ser que a avó lhe tenha dito para entrar e abrir os olhos de ver. Fita Verde assim o fez, e a pedido foi para perto da avozinha, enquanto ainda era tempo. A morte vinha chegando, e um ser humano já idoso ali estava, mostrando-se naturalmente finito aos olhos da menina. A avó um dia nascera, fora jovem, amadurecera e agora morria. A vida, então, tinha fim, e sabendo disso a garota ficou triste por ter perdido “em caminho sua grande fita verde no cabelo atada” – perdia sua inocência ante as coisas da vida, suas etapas, suas cruezas. A avó era velha demais, tinha os braços magros e as mãos trementes, os lábios arroxeados e os olhos já fundos e parados no rosto encovado e pálido. Partia, e não mais podia ver a netinha que ficava. Fita Verde se assustou, “como se fosse ter juízo pela primeira vez”: “Vovozinha, eu tenho medo do lobo!”, gritou. Mas a avó já havia ido embora. Restava seu corpo repentinamente frio. A “indesejada das gentes”, crua e inapelável, tornava-se conhecida, desmitificada e sem a fantasia às vezes complicada e vã bordada pelos adultos.

“O universo ficcional rosiano não é jamais estático, nem nunca construído em um único nível”: mito e fantasia estão em constante tensão com a lógica racionalista. Ambas são possibilidades não excludentes de leitura do mundo. Para Rosa, loucos, cegos e, sobretudo, crianças e velhos, são marginalizados pelo adulto, com sua visão imediatista da existência. Para o criador de Riobaldo e Diadorim, nem o senso comum nem o racionalismo podem se fazer de rogados, porque a sabedoria é algo distinto da lógica. Daí se entende por que Fita Verde é bem o oposto de Chapeuzinho Vermelho: o universo ficcional de Rosa é busca e expressão da terceira margem: sua palavra promove uma “verdadeira desconstrução do discurso hegemônico da lógica ocidental”. Talvez porque, para ele, a vida é mais do que aquilo que pensamos ver no caminho, mais do que as aparentes e gastas realidades consideradas. Talvez porque, para um Guimarães Rosa, “a vida era à hora”.

Você é um ser livre ou apenas “dono do seu nariz”?

Gozar a vida sem freio e sem limites, sem qualquer preocupação com as consequências dos atos e sem dar satisfação a quem quer que seja. Há quem muito se afinize com essa imersão no turbilhão agitado dos prazeres, dizendo-se dono da própria vida, senhor do próprio nariz. Mas será que se deixar levar pela emoção, pela sensação e pelo desejo, ao sabor das circunstâncias, é mesmo ser livre?
Ser dono do próprio nariz é postura admirável e mesmo natural e espontânea numa pessoa amadurecida. Acontece, porém, que muita gente que se considera senhora de si costuma se aventurar facilmente por atalhos e escolhas invariavelmente caprichosas. Nessa trilha, estão em ebulição sensações diversas, certamente, mas que pouco ou nada acrescentarão em termos de autoconhecimento, enquanto reforçarão o individualismo. Nessas veredas, muitas pessoas se distanciam da construção da autonomia, aquele patamar que nos permite iniciar a escalada da conquista da liberdade genuína. É que, não raro, caindo no mundo acelerado para colecionar emoções, a pessoa acaba cedendo as rédeas da vida a um ego ainda imaturo demais para o comando e direcionamento dos passos no rumo da felicidade essencial. Embora enamorada da ideia de liberdade (ideia, aliás, inata em nós), a pessoa caminha, na verdade, pela precipitação e imaturidade, para uma espécie de prisão: a da cadeia lógica que amarra causas e efeitos, ação e reação, já que com nossos pensamentos e atitudes cada um constrói, inevitavelmente, o futuro para si. Ora, isso é muito mais sério, complexo e completo do que chegar à maioridade, por exemplo, e se achar, por isso, livre e sem limites – triste ilusão, se o mundo é sempre cheio de fios e tramas causais que tecem suas esteiras de efeitos.
Conquistar verdadeiramente a liberdade é muito diferente de dar ao ego o amplo controle da vida. Nossa movimentação no mundo gera consequências leves, moderadas ou graves, e deixar-se levar prioritariamente pela emoção é algo sensivelmente perigoso. Enquanto o ser amadurecido pensa e pesa suas escolhas, seus passos, suas decisões, o ego inflamado dá de ombros, tapa os ouvidos e escapa para suas aventuras, sem se dar conta de que a liberdade, no mais profundo sentido do termo, agiganta suas asas e decola para os mais fantásticos voos apenas quando a ordem de partida e o impulso de subida nascem no seio de um coração suficientemente desperto para traçar com responsabilidade os seus planos de voo.
Se sabemos desejar emoções e sensações, mas ainda não aprendemos a analisar os sentimentos que delas nascem, faríamos melhor avaliando a realidade da pequena envergadura das asas que agitamos. Pode ser atraente a ideia de cair no mundo, bailando no ar como folha solta ao vento, pode ser apaixonante a ideia de se enamorar do eterno canto das sereias, mas será bastante difícil e doído o retorno a nós mesmos, quando já estivermos nos labirintos da ilusão. Dando tudo ao presente, sem qualquer atenção aos valores éticos, ao sentimento de solidariedade de que o mundo precisa e pelos quais é, no fundo, regido, sem atentar para a necessidade interior de caminhar rumo à totalidade, a integralidade do ser, enfim, alcançaremos alguma velocidade, mas altura nenhuma, nem conforto psíquico nas chegadas – adiante, um vazio no peito esperará por aquele que só viveu para as coisas exteriores. Se, por outro lado, aprendemos a refletir sobre os efeitos das nossas escolhas, fazendo uso da empatia (que é o colocar-se no lugar dos outros) e ouvindo a voz da consciência com humildade e sinceridade, bem como aconselhando-nos com os mais experientes e mais sábios, caminharemos como quem sabe francamente ser livre e autor feliz do próprio destino. É que por meios assim nos capacitaremos para semear e colher, entre as infinitas delícias do viver, aquelas sementes que se transformarão em flores e frutos ao longo do caminho, e não em galhadas de espinhos.