domingo, 25 de fevereiro de 2018

Morrer não é o fim

Pois é...
Um dia sempre nasce depois do outro. Mudanças? O velho Camões já nos dizia: “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades... Todo o mundo é composto de mudança”. Sim, são muitas as mudanças: um dia é cinza, o outro é dourado de sol, uma manhã traz gorjeios de passarinhos, gritinhos de maritacas, e a outra manhã nasce ao som da chuvinha caindo nos telhados. Toda a vida, em todo o tempo, é movimento.

As plantas vão nascendo devagarinho das sementes... A gente vai crescendo, crescendo... Nosso corpo é uma movimentação impressionante. No cérebro, bilhões de neurônios dão conta do que somos, do que sentimos, do que fazemos, num constante processar de dados e dados... Nossas células da pele se renovam todos os dias. Nossos pensamentos se modificam... Nós todos, num dia, aqui chegamos e em outro partimos deste mundo... sempre o movimento! Nada para! Nada permanece do mesmo jeito, no mesmo lugar: nem os sonhos, nem os tempos... O Espírito também não para jamais.

“A morte não é nada”, “morrer é apenas passar para o outro lado do caminho”, disse Santo Agostinho. E se pensarmos com alguma calma, concordaremos que morrer não é estranho, mas sim continuação, outra fase do processo daquilo que nunca para. Do outro lado do caminho, há estradas, há companheiros de caminhada que alegremente reencontramos, há serviço e aprendizado. Lá também a esteira do movimento! E no movimento, de lá viemos, como daqui saímos, cumprindo a nossa muito longa jornada. Foi, é e será assim para todos os humanos.

Alguém querido partiu? A saudade, o carinho, a ternura, a amizade são sentimentos muito compreensíveis e não lhes fazem nenhum mal lá onde agora se encontram. As preces pedindo luz e amparo são das melhores atitudes que podemos tomar após a partida de um ser querido. Por outro lado, o desespero, a revolta, o medo, a intranquilidade, a rebeldia, tudo isso acaba por atrapalhar o desenlace daquela alma que, feito borboleta, está se soltando do casulo e precisa voar com leveza rumo à luz.

A vida é isto: estamos neste mundo apenas de passagem. Muitos acreditam que, do outro lado do caminho, está a vida eterna. Outros, que o processo é contínuo e recomeça sempre. Na verdade, nesta hora, não importa tanto como vemos a questão, importa que não podemos mudar as leis da natureza. Não podemos parar nem interromper nem reverter o processo. Podemos apenas pensar, orar, pedir a paz e a iluminação divina antes, durante e depois da necessária travessia. Pensemos com carinho imenso naquele que se foi, mas saibamos que é este o seu destino: a luz!

Não fazemos bem algum teimando em lhe dificultar as coisas, esticando algum sofrimento. Precisamos, com maturidade, aceitar as coisas como elas são, ainda que sentindo muita, muita dor. Assim, por mais que a tristeza nos assalte, e ela é para nós natural nos episódios de partida, não dificultemos a passagem do ente querido para a liberdade. Que tudo façamos para que ele, um Espírito imortal, possa se desligar com mais felicidade das nossas dificuldades de consolo, da nossa sensibilidade e do nosso fraco entendimento. Caro amigo, nós que ficamos ainda precisamos ficar; os que se foram estão apenas do outro lado, já voltaram para a casa de onde todos viemos. Também nós iremos para lá, quando cessada a viagem. Se cá ficamos, nossa missão ainda demanda tempo e ações por aqui mesmo. Richard Bach tem um belo pensamento sobre isso: “Eis um teste para saber se você terminou sua missão na Terra: se você está vivo, não terminou.”

Pensemos sempre, então, em destinar ao parente, ao amigo toda a força! Saibamos, pacificando nossos corações, que “cada lagarta tem seu tempo de casulo e seu tempo de ser borboleta. Não há como forçar e nem como acelerar os tempos...” São leis naturais, as que dirigem nascimentos e renascimentos. E então, lembrando-nos dos inúmeros bons momentos que juntos tivemos, trabalhemos no íntimo, a cada dia e com mais convicção, as raízes intelectivas da fé, a esperança pacificadora, lúcida e inequívoca de que um dia, cedo ou tarde, na outra dimensão, nos reencontraremos e de novo partilharemos da sua companhia feliz na incessante caminhada.

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