Pois é...
Um
dia sempre nasce depois do outro. Mudanças? O velho Camões já nos dizia:
“mudam-se os tempos, mudam-se as vontades... Todo o mundo é composto de
mudança”. Sim, são muitas as mudanças: um dia é cinza, o outro é dourado de sol,
uma manhã traz gorjeios de passarinhos, gritinhos de maritacas, e a outra manhã
nasce ao som da chuvinha caindo nos telhados. Toda a vida, em todo o tempo, é
movimento.
As plantas vão
nascendo devagarinho das sementes... A gente vai crescendo, crescendo... Nosso
corpo é uma movimentação impressionante. No cérebro, bilhões de neurônios dão
conta do que somos, do que sentimos, do que fazemos, num constante processar de
dados e dados... Nossas células da pele se renovam todos os dias. Nossos
pensamentos se modificam... Nós todos, num dia, aqui chegamos e em outro
partimos deste mundo... sempre o movimento! Nada para! Nada permanece do mesmo
jeito, no mesmo lugar: nem os sonhos, nem os tempos... O Espírito também não
para jamais.
“A morte não é
nada”, “morrer é apenas passar para o outro lado do caminho”, disse Santo
Agostinho. E se pensarmos com alguma calma, concordaremos que morrer não é
estranho, mas sim continuação, outra fase do processo daquilo que nunca para.
Do outro lado do caminho, há estradas, há companheiros de caminhada que
alegremente reencontramos, há serviço e aprendizado. Lá também a esteira do
movimento! E no movimento, de lá viemos, como daqui saímos, cumprindo a nossa muito
longa jornada. Foi, é e será assim para todos os humanos.
Alguém querido
partiu? A saudade, o carinho, a ternura, a amizade são sentimentos muito
compreensíveis e não lhes fazem nenhum mal lá onde agora se encontram. As
preces pedindo luz e amparo são das melhores atitudes que podemos tomar após a
partida de um ser querido. Por outro lado, o desespero, a revolta, o medo, a intranquilidade,
a rebeldia, tudo isso acaba por atrapalhar o desenlace daquela alma que, feito
borboleta, está se soltando do casulo e precisa voar com leveza rumo à luz.
A
vida é isto: estamos neste mundo apenas de passagem. Muitos acreditam que, do
outro lado do caminho, está a vida eterna. Outros, que o processo é contínuo e
recomeça sempre. Na verdade, nesta hora, não importa tanto como vemos a
questão, importa que não podemos mudar as leis da natureza. Não podemos parar
nem interromper nem reverter o processo. Podemos apenas pensar, orar, pedir a
paz e a iluminação divina antes, durante e depois da necessária travessia. Pensemos
com carinho imenso naquele que se foi, mas saibamos que é este o seu destino: a
luz!
Não
fazemos bem algum teimando em lhe dificultar as coisas, esticando algum
sofrimento. Precisamos, com maturidade, aceitar as coisas como elas são, ainda
que sentindo muita, muita dor. Assim, por mais que a tristeza nos assalte, e
ela é para nós natural nos episódios de partida, não dificultemos a passagem do
ente querido para a liberdade. Que tudo façamos para que ele, um Espírito
imortal, possa se desligar com mais felicidade das nossas dificuldades de consolo,
da nossa sensibilidade e do nosso fraco entendimento. Caro amigo, nós que
ficamos ainda precisamos ficar; os que se foram estão apenas do outro lado, já
voltaram para a casa de onde todos viemos. Também nós iremos para lá, quando cessada
a viagem. Se cá ficamos, nossa missão ainda demanda tempo e ações por aqui
mesmo. Richard Bach tem um belo pensamento sobre isso: “Eis um teste para saber se
você terminou sua missão na Terra: se você está vivo, não
terminou.”
Pensemos
sempre, então, em destinar ao parente, ao amigo toda a força! Saibamos,
pacificando nossos corações, que “cada lagarta tem seu tempo de casulo e seu
tempo de ser borboleta. Não há como forçar e nem como acelerar os tempos...”
São leis naturais, as que dirigem nascimentos e renascimentos. E então,
lembrando-nos dos inúmeros bons momentos que juntos tivemos, trabalhemos no
íntimo, a cada dia e com mais convicção, as raízes intelectivas da fé, a esperança
pacificadora, lúcida e inequívoca de que um dia, cedo ou tarde, na outra dimensão,
nos reencontraremos e de novo partilharemos da sua companhia feliz na
incessante caminhada.
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