sexta-feira, 13 de julho de 2018

Um dia para Inês


Na casa de Inês, o verde de fora vinha para dentro e aparecia em forma de volumosas samambaias que ornamentavam as paredes, enquanto em vasos menores surgia mais tímido, em violetas, beijos, azaléias, miudezas que coloriam a casa desde o alpendre.
Na sala de janta, como chamavam aquele lugar, a mesa era grande. De madeira clara e maciça, ia de um canto ao outro da parede. Os bancos e cadeiras não lhe faziam conjunto, eram de formas, tons e tamanhos diferentes e somavam quinze assentos. Por cima um grande plástico transparente protegia o tampo da poeira do dia, que subia do chão do quintal e da roça. Sobre o plástico esticava-se um enorme caminho-de-mesa vermelho, todo trabalhado em crochê, que deixava cair nas cabeceiras graciosos pingentes da mesma linha. No centro, uma gamela exibia frutas frescas, saudáveis, apanhadas no pomar. Entre as frutas, dois clipes, um laçarote de barbante, um botão de camisa e um tubo de caneta sem tinta.
Mulheres subiam e desciam as escadas que davam na cozinha. No fogão a lenha queimava e Luzia mexia o angu num tacho exagerado. Ferviam outras panelas tampadas. Num canto, longe e só, o fogão à gás, marca Cosmopolita, todo branquinho, assistia inerte. Sobre ele uma toalha também em crochê vermelho e uma compoteira cheinha de ovos frescos. Havia também ali uma mesa e dois bancos grandes e inteiriços como os das igrejas.
Perto da janela miúda havia uma pequena prateleira, afixada por duas cantoneiras velhas, que sustentava um rádio antigo. Em cima dele um toco de vela e uma caixa de fósforos. Na pia grande, cinco frangos abatidos e três enormes pés de alface verdinhos, para o almoço. No alto, o filtro de barro sobre uma pedra mármore. Atrás dele um vidro de Magnésia de Philips, outro de Sal de Frutas. Bem debaixo da torneira, um copo vazio de requeijão continha a gota d'água que caía regularmente.
Inês era uma mulher forte. De fibra, ajudava na roça, cuidava da horta, cuidava dos porcos, das galinhas e, sendo preciso, fazia as vezes de retireiro. Assava broas deliciosas, matava e preparava leitão, enchia linguiças. Quando torrava o café no rancho, ficava vermelha feito pimenta, mas, mesmo suada e cansada, sorria sempre, esbanjando uma felicidade muito natural.
Capricho e simplicidade tinham ali o seu endereço, na casa de Inês. Ela, mais do que todas as suas irmãs, primas e amigas, não tinha dos mimos e segredos das mulheres da cidade. Sua beleza era a que Deus lhe deu. Vivia contando casos e sorrindo, enquanto estava na lida. Hoje, não. Inês hoje parece até outra mulher. Traz no rosto uma papa de açúcar e mel. Os cabelos, enrolados em cachos no alto na cabeça. Inês, hoje, ao invés de trabalhar, dava ordens.
Marino nunca teve ambição. Levava a vida numa mansidão besta. Cuidava da roça, cuidava dos porcos. Era retireiro por profissão. No mais, era homem de comer e beber além da conta. Mais nada. Se visse Inês hoje, com tanta frescura, era capaz de achar errado.
- Ô de casa!
- Ué, Marino – disse Luzia, vermelha de tanto tempo à beira do fogão – ocê não sabe que ver a noiva no dia do casório dá azar?
- Besteira. Cadê a Inês?
- Saiu agorinha. Foi se aprontar e fazer a tal de “maquilage”. Ocê ainda não tirou essa barba, homem? Se apresse, que tá quase na hora.
- Num pé eu tomo banho, faço a barba e ainda engulo dois pratos de janta.
Um sujeito extremamente rude, o Marino. Um homem assim pode se casar em qualquer dia e lugar. Não é de cerimônia nem tem no que pensar. Inês também é rude. Come ovo frito com arroz todos os dias, mas, escondida, traz sempre uma flor no regaço. É mulher. Sonha. Tem no sangue o visgo secular de Branca de Neve. De Bela Adormecida. De atriz de novela das oito no dia em que vai se casar.
Hoje, Inês está que nem uma artista! Seu vestido é todinho branco. Sua boca foi desenhada de vermelho pelas mãos de uma adolescente rica, acostumada com essas coisas. As sobrancelhas ficaram mais finas e foram penteadas. Escondida na nuvem de pó que lhe cobre o rosto, Inês, meu Deus!, parece outra mulher. Os olhos desaguam sem parar e quase estragam toda a pintura. É dia de graça. Salve Deus, nosso Senhor! Salve Santo Antônio! Inês vai se casar.
Uma hora antes de ir para Igreja, Inês foi com a dama de honra tirar umas fotografias num sítio muito florido e arrumado.
Ao chegar à porta da Matriz, Inês está como que anestesiada. Se, quando criança, alguém lhe tivesse contado estórias literárias, ela reconheceria, agora, em si, a Cinderela. Era dia de fada sair de algum lugar e vir encantar dia de noiva. Fadas sempre fazem isso. A noiva dá os seus primeiros passos. Entra na Igreja ao lado do pai, um velhinho que não deu nem um pio, cansado que vinha dos setenta anos de enxada. Inês lá vai... Uns quatro metros de chão, uma légua de pensamentos. Lá vai ela, toda importante, toda especial, nem sabe direito. Vê Marino, aquele jeitão assim-assim, que logo irá beijá-la, ao sinal do padre. Pensa nos filhos que terão, no enxoval que vai sair branquinho do baú. Pensa na festa, no bolo de dois andares que ganhou de um padrinho, nas fotos que tirou no sítio de D. Gracia. Pensa em Juliana, a jovem rica que a maquiou e que está lá na frente, toda orgulhosa da Inês assim, tão bonita. Pensa na mãe, na roupa nova que está usando, nos sapatos que com certeza lhe apertam muito os pés. Pensa em Dinorá, sua maior amiga e num jeito de jogar para ela o buquê. Sorri para o fotógrafo, mas molha o retrato. Tudo tão rápido, tão feliz e tão depressa... Como um flash, tudo passou. Que úmida! Que triste essa tal felicidade!
O sol atrasou bastante o dia seguinte. Marino mal esperou o cantar do galo. Saiu, como sai todo dia, para tirar leite. Sua vida não é outra nem é diferente. Se está morando agora com Inês, se é ela quem lavará suas roupas agora, que diferença isso pode fazer? Inês só acordou diferente na mão esquerda.
No quarto, ainda cedinho, dobrou com silêncio e cuidado o vestido de noiva. Tão branquinho! Tão bordado! Abriu as janelas, foi encerar o chão da casa, lavou roupas, varreu o quintal e já era hora de esquentar para Marino um tacho de frango com macarrão. Rasgou alfaces muito frescas, pôs tudo numa grande tigela de esmalte. Em cima da geladeira, viu um pedaço do bolo da festa. Essas delícias sobraram da véspera. Em Inês sobrava só a mulher do dia.
Numa panelinha, misturou com gosto um punhado de arroz branco com um ovo estrelado. Jogou uma pitada de sal, esfregando os dedos sobre a panela. Não precisava de mais. Comeu ali mesmo, de pé, olhando lá fora o varal. Quase chegava a hora de apanhar as roupas.