Um conhecido meu, que tem por hábito
viver entre a verdade e ficção, diria que Dom Pedro I, ao chegar às margens do
Ipiranga, suspirou. E o povo heroico teria suspirado depois do retumbante brado.
Essas ideias que não se oficializam nos documentos sempre me são mais profundamente
interessantes do que os fatos altivos, muito vigiados, sobre os quais, em
uníssono, sabemos repetir tantas palavras... O mundo parou para eu imaginar o
suspiro, num peito largo de imperador.
Bonito, isso. Bonito caber tanto em um
suspiro: palavras, sonhos, desejos, medos, perdas, vitórias... Aviso: eu sempre
me acho-perco nesses mergulhos lúdicos. Foi uma aluna que me disse isso, outro
dia. Eu mesma não sabia. “Professora, você é lúdica”. Poxa! Uma menina, metade
de mim na idade! Suspirei, sorvendo toda a frase e o gosto raro que ela tinha.
E suspirei tão longamente que ainda trago desse feixe de ondas sonoras alguns ecos.
Seria o suspiro a identidade instantânea
e flagrante do sentimento, seu retrato mais fiel ou menos fingido? Suspiro! Suspiro,
porque há muito eu sei que ar demais não anda cabendo em mim, veloz nem
comprido... Urgente tem sido eu viver com menos...
Um suspiro meu – quem diria?! – ar tão
íntimo e invisível, certa feita sorvia um perfume feliz que enviesava o dia,
lembrando aos meus sonhos, tão cansados de cheirar ausências, que há aromas e
horizontes nos longes deste tempo, além de alguma fronteira... Meus suspiros
conhecem bem a seda com que há muito costuro solitária a eterna colcha de
sonhar Ulisses, bordando os dias com os horizontes e as cores das gentes que passam.
Na solidão, brinco de imaginar e des-imaginar o comboio aéreo que me entra,
tira e põe o trem de encantos e desencantos em suave trilho. Ludismo...
Ia franzir a testa agora, para dissertar
seriamente sobre o suspiro, mas antes de dar corda na velha caneta velha, me
peguei suspirando preguiçosamente... Então, moleca, deito a pena e desisto. E
reflito também sobre isso. Vejo que... sim, há um suspiro antes das decisões.
Se não o suspiro, corro o risco de
não somar todos os fios dos pensamentos, deixando no vazio de fora uma nota
desesperada, de tão só e de tão solta.
Mas o suspiro – eu devia contentar-me
com o suspirar, coisa minha tão alta e funda, e calar estas palavras que não o
explicam –, mas o suspiro, eu dizia, começando lento e subindo cheio, me lembra
uma delicada bolha de sabão: curta e cheia; perfeição do instante; explosão da
mais linda e inteira redondeza. Que leveza o tempo e o ar, voando um dentro do
outro!... Eu, que amo coisinhas e miudezas, ponho meus olhinhos de criança no
redondinho desse brinquedo que navega as curtinhas possibilidades e as surpresas.
Eu me sei bobinha assim, encantada, suspirando o cheiro bom daquilo que passa, ainda
que do meu lado uma voz de alfinetes me venha dizer que uma bolha é só uma
coisa “imprecisa, nem sólida nem líquida”, como naquele conto de Lygia. Mas...
e o que dentro dela voa e fica?
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