sábado, 24 de fevereiro de 2018

Podemos fazer mais por nós


Há no correr dos dias algo que com lentes comuns ou distraídas não podemos vislumbrar. Hipnotizados pela rotina e pelo imediatismo, não é plausível esperar que venhamos a colher aprendizados criteriosos e conscientes, que ampliem os limites da felicidade pessoal, se não nos dispusermos a observar. Pessoas como nós estão nos ensinando diariamente a caminhar rumo à luz. O que nos impede de desenvolver a força de caráter que os já despertos revelam em suas escolhas e ações tão felizes? Por que nos demoramos tanto na escolha desse caminho?

Pessoas há que se dedicam intensamente à observação dos fatos, das próprias emoções e sentimentos, e com isso refletem, meditam, aprendem, e, com seus pensamentos e atos, influem belamente na qualidade dos seus dias. Paralelamente, quantos seguem sem meta, nada criando de belo para si, acostumados com uma vida repetitiva e tosca?

Algumas histórias vinculadas em mídias sociais puxaram os fios destes meus raciocínios. Vez e outra se publicam ocorrências dignas de reverência e respeito, sobre pessoas que se sobressaem no meio dos cotidianos mais densos: é um jovem de condição social menos favorecida que a todos surpreende com brilhante aprovação em concorridos vestibulares, ou que conquista medalhas em difíceis olimpíadas estudantis; é um milionário que não se furta a um trabalho humilde, com acurado sentimento de dever moral; é a criança que se comove com injustiças e dores alheias e sensibiliza o mundo com alguma atitude de profunda e madura solidariedade... Quantas vezes vemos alguém resgatar do lixo, além do alimento com que se sustentar, um livro roto com que supre a fome de saber? De onde vem essa chama, essa sede de conhecimento que transforma o ser? Imagino com que legítimo prazer essa pessoa deve se debruçar sobre as páginas úmidas de um livro jogado no tempo, sorvendo-as na solidão dos seus desejos de ascensão e vitória, saciando seu anseio de aprender! Que força interior tem um ser como esses? Já pensou nisso? Eles são especiais? Ou essa força tem princípio comum em todos nós?

Se menos preocupados com os louros do mundo, podemos, nós também, investir em aprendizados que nos diferenciam da grande mole humana, à qual saberemos por nossa vez, e na medida do nosso esforço, sensibilizar, para que venha a provar de outras águas, conhecer outros interesses – conhecer prismas, aspectos, detalhes que falem ao coração, ao sentimento, lustrando os raciocínios no contato com outros temas. Faremos bem, distanciando-nos um tanto dos prazeres fáceis, do gosto barato, das luzes artificiais, das aparências, da rotina miserável das coisas sem graça ou sem sentido, das coisas, enfim, que nunca sustentam verdadeiramente um ser humano. Temos, cada um de nós, essa força interior latente. Temo-la em gérmen, e sentimos que ela vibra, quando nos sensibilizamos com alguma boa história, com algum exemplo amoroso ou terno ocorrido fora de nós.

O ser que reserva alguns momentos de reflexão e estudo maduro, rompendo as malhas da fantasia e da distração ininterrupta e irresponsável que o tenta sufocar, faz uma escolha diferenciada e exercita nos dias o livre-arbítrio, acordando as sementes das potencialidades que lhe dormem ocultas.

Ao nosso alcance, muitas coisas há que não exigem de nós altos voos de intelectualidade ou profundidades de raciocínios, mas que, aparentadas com as simplicidades e as essências, muito nos beneficiam interna e externamente: a conversa honesta e amiga com seres que partilham conosco da viagem terrena; a leitura de uma história digna; a reflexão sobre uma ideia feliz ou libertadora; a construção de uma nova atitude; o apreciar de um belo acontecimento; a gratidão pelas benesses, pelas lições e vitórias... Como nos faz bem aquela boa xícara de café com amigos que param para verdadeiramente se olhar, partilhando as dores e as delícias de que somos todos portadores! A vida, em seu significado maior, explode, explodirá sempre, em alturas e belezas, se ousarmos interromper a marcha angustiada ou distraída dos nossos passos cansados e lhe dermos, para sua esplêndida e natural manifestação, um pouco de tempo e lugar.

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