Há no
correr dos dias algo que com lentes comuns ou distraídas não podemos
vislumbrar. Hipnotizados pela rotina e pelo imediatismo, não é plausível
esperar que venhamos a colher aprendizados criteriosos e conscientes, que
ampliem os limites da felicidade pessoal, se não nos dispusermos a observar. Pessoas como nós estão nos
ensinando diariamente a caminhar rumo à luz. O que nos impede de desenvolver a
força de caráter que os já despertos revelam em suas escolhas e ações tão
felizes? Por que nos demoramos tanto na escolha desse caminho?
Pessoas
há que se dedicam intensamente à observação dos fatos, das próprias emoções e
sentimentos, e com isso refletem, meditam, aprendem, e, com seus pensamentos e
atos, influem belamente na qualidade dos seus dias. Paralelamente, quantos seguem
sem meta, nada criando de belo para si, acostumados com uma vida repetitiva e tosca?
Algumas
histórias vinculadas em mídias sociais puxaram os fios destes meus raciocínios.
Vez e outra se publicam ocorrências dignas de reverência e respeito, sobre
pessoas que se sobressaem no meio dos cotidianos mais densos: é um jovem de
condição social menos favorecida que a todos surpreende com brilhante aprovação
em concorridos vestibulares, ou que conquista medalhas em difíceis olimpíadas
estudantis; é um milionário que não se furta a um trabalho humilde, com acurado
sentimento de dever moral; é a criança que se comove com injustiças e dores
alheias e sensibiliza o mundo com alguma atitude de profunda e madura
solidariedade... Quantas vezes vemos alguém resgatar do lixo, além do alimento
com que se sustentar, um livro roto com que supre a fome de saber? De onde vem
essa chama, essa sede de conhecimento que transforma o ser? Imagino com que
legítimo prazer essa pessoa deve se debruçar sobre as páginas úmidas de um
livro jogado no tempo, sorvendo-as na solidão dos seus desejos de ascensão e
vitória, saciando seu anseio de aprender! Que força interior tem um ser como
esses? Já pensou nisso? Eles são especiais? Ou essa força tem princípio comum
em todos nós?
Se menos
preocupados com os louros do mundo, podemos, nós também, investir em
aprendizados que nos diferenciam da grande mole humana, à qual saberemos por
nossa vez, e na medida do nosso esforço, sensibilizar, para que venha a provar
de outras águas, conhecer outros interesses – conhecer prismas, aspectos,
detalhes que falem ao coração, ao sentimento, lustrando os raciocínios no
contato com outros temas. Faremos bem, distanciando-nos um tanto dos prazeres
fáceis, do gosto barato, das luzes artificiais, das aparências, da rotina
miserável das coisas sem graça ou sem sentido, das coisas, enfim, que nunca
sustentam verdadeiramente um ser humano. Temos, cada um de nós, essa força
interior latente. Temo-la em gérmen, e sentimos que ela vibra, quando nos
sensibilizamos com alguma boa história, com algum exemplo amoroso ou terno
ocorrido fora de nós.
O ser
que reserva alguns momentos de reflexão e estudo maduro, rompendo as malhas da
fantasia e da distração ininterrupta e irresponsável que o tenta sufocar, faz
uma escolha diferenciada e exercita nos dias o livre-arbítrio, acordando as
sementes das potencialidades que lhe dormem ocultas.
Ao nosso
alcance, muitas coisas há que não exigem de nós altos voos de intelectualidade ou
profundidades de raciocínios, mas que, aparentadas com as simplicidades e as essências,
muito nos beneficiam interna e externamente: a conversa honesta e amiga com
seres que partilham conosco da viagem terrena; a leitura de uma história digna;
a reflexão sobre uma ideia feliz ou libertadora; a construção de uma nova atitude;
o apreciar de um belo acontecimento; a gratidão pelas benesses, pelas lições e
vitórias... Como nos faz bem aquela boa xícara de café com amigos que param
para verdadeiramente se olhar, partilhando as dores e as delícias de que somos
todos portadores! A vida, em seu significado maior, explode, explodirá sempre,
em alturas e belezas, se ousarmos interromper a marcha angustiada ou distraída dos
nossos passos cansados e lhe dermos, para sua esplêndida e natural
manifestação, um pouco de tempo e lugar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário