Os leitores de Guimarães Rosa sabem que o mestre mineiro, em suas obras, trabalha as várias facetas do homem sem limitá-las com o traço tipicamente regional das suas personagens. Elas viajam, ainda que em lombo de burro, para chãos estrangeiros, para paragens de nós desconhecidas, talvez nem imaginadas. Rompendo fronteiras, enfim, crescem, transcendem para além do regionalismo, caro ao autor, e avançam rumo à universalização – ao essencialmente humano, fato que, por sua vez, é caro ao médico, soldado e escritor nascido na pequena Cordisburgo, em Minas Gerais.
Em “Fita Verde no Cabelo”, o alquimista da palavra, como bem disse Eduardo Coutinho, faz, de certa forma, uma viagem “em pós”: toma o universal que já corria o mundo nas diversas versões de Chapeuzinho Vermelho e o coloca em nossas verdes matas. A garotinha é daqui e, aqui, mais usual do que o capuz é sua fita verde inventada no cabelo. A mineirinha é a mesma meninazinha nascida em cada um dos quatro cantos do mundo.
O ambiente mineiro, ou pelo menos bem brasileiro, na releitura rosiana se estabelece na imaginação do leitor quando lê o mais que existe dentro do pote de doce em calda. Todavia, que felicidade há em fixar para Fita Verde uma aldeia mineira, quando sua aldeia está em todo tempo e lugar, regional, mas transcendente? É Rosa mesmo quem o diz: “Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor”, ou seja, como nas histórias infantis, que começam invariavelmente com o era uma vez, espaço e tempo são, na verdade, irrelevantes. Isso não quer dizer, contudo, que não seja possível para enredos universais uma localização espaço-temporal, ou que eles independam do seu porta-voz. Sabemos que o escritor escreve com intenção de se fazer entender, de comunicar uma ideia. Ele é um ser localizado, social e historicamente; logo, esse “não tempo” e esse “não espaço” por onde uma garotinha vai à casa da avó não modificam o enredo; quem o modifica, segundo sua interpretação, é o autor, o recriador da história, que a reescreve segundo sua particular e singular interpretação. As variadas versões desse mesmo conto, para ficarmos só com ele, comprovam isso repetidamente. As releituras tomam um significado dogmático ou tornado corriqueiro – uma menina vai à casa da avó e é tentada (ou quase) por algum perigo no caminho – e tentam mostrar que há outras maneiras de se pensar o drama vivido pela Chapeuzinho Vermelho de Perrault e a dos irmãos Grimm. Estes, insatisfeitos, talvez, com o saliente tom moralizante daquele, difundiram uma variante da história, não mais fortalecendo a ideia final de que uma menina não deve dar atenção a estranhos, como queria Perrault. Há muito mais para ser explorado nesse caminho de passivos velhos que velhavam, percorrido pela menina que, sobejamente, leva nas mãos um cesto vazio e a enorme fome de almoço: há a vida e suas movimentadas nuanças.
Fita Verde era a que por enquanto – uma menina, sem o suficiente juízo dos adultos que, esquecidos dos movimentos da vida, tinham as aldeias sempre quase iguaizinhas. Levava como oferenda um doce apetitoso e, no cesto vazio, a expectativa de enchê-lo de possibilidades. Enquanto tantos, de forma diversas, como Perrault e Grimm, advertiam-na do perigo solto no bosque, a Fita Verde de Guimarães Rosa não viu “lobo nenhum, desconhecido nem peludo”. E que perigo haveria se tudo por ali se queria repetido e gasto, se nada, nem as pessoas nem as avelãs se mexiam naquelas estradas? O movimento, contudo, e nos longes do tempo Heráclito já o sabia, existe para todas as coisas. Uma avelã tem seu momento de semente e num processo constante é que amadurece. Uma criança também sabe disso, e a menina divertia-se com ter nos cabelos uma fita inventada, símbolo daquele seu momento de florescimento: sabia-se menina, toda esperança, toda criatividade e curiosidade. E tanto é movimento e surpresa a estrada da vida que o lobo maldito lá não estava, na temida curva do caminho. Há muito ele morava no medo imaginário dos lenhadores. E esse medo, para Rosa, era medo da vida.
A aldeia estava depois do moinho que não há; era, então, a aldeia da imaginação. O caminho até ela bifurcava-se: havia o louco e longo; havia o encurtoso, comum, igual, com lobos previamente exterminados. Enquanto Chapeuzinho Vermelho seguiu obediente pelo caminho mais curto, Fita Verde seguiu, com suas asas ligeiras, pela estradinha mais fresca e criativa, que a gente pensa que vê, que a gente não vê que não é, com lobo nenhum. Os lenhadores eram castradores de vitalidades e derrubaram o perigo, extirpando o lobo – que era medo e, também, objeto de desejo, como o doce em calda que a menina trazia. É que se mantinham “todos com juízo, suficientemente”. Aparece aí a eterna história “da luta entre o bem e o mal. Se, contudo, olharmos também para além dessas antinomias, no ilimitado pensamento de Guimarães Rosa, avistaremos o que tem de mais belo e rico: uma terceira margem para os movimentos e para as soluções, uma terceira hipótese para a vida.
Fita Verde chegou à casa da avó, que “difícil disse: ‘Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe’”. A inversão “entra e abre” só à primeira vista é ilógica: pode ser que a avó lhe tenha dito para entrar e abrir os olhos de ver. Fita Verde assim o fez, e a pedido foi para perto da avozinha, enquanto ainda era tempo. A morte vinha chegando, e um ser humano já idoso ali estava, mostrando-se naturalmente finito aos olhos da menina. A avó um dia nascera, fora jovem, amadurecera e agora morria. A vida, então, tinha fim, e sabendo disso a garota ficou triste por ter perdido “em caminho sua grande fita verde no cabelo atada” – perdia sua inocência ante as coisas da vida, suas etapas, suas cruezas. A avó era velha demais, tinha os braços magros e as mãos trementes, os lábios arroxeados e os olhos já fundos e parados no rosto encovado e pálido. Partia, e não mais podia ver a netinha que ficava. Fita Verde se assustou, “como se fosse ter juízo pela primeira vez”: “Vovozinha, eu tenho medo do lobo!”, gritou. Mas a avó já havia ido embora. Restava seu corpo repentinamente frio. A “indesejada das gentes”, crua e inapelável, tornava-se conhecida, desmitificada e sem a fantasia às vezes complicada e vã bordada pelos adultos.
“O universo ficcional rosiano não é jamais estático, nem nunca construído em um único nível”: mito e fantasia estão em constante tensão com a lógica racionalista. Ambas são possibilidades não excludentes de leitura do mundo. Para Rosa, loucos, cegos e, sobretudo, crianças e velhos, são marginalizados pelo adulto, com sua visão imediatista da existência. Para o criador de Riobaldo e Diadorim, nem o senso comum nem o racionalismo podem se fazer de rogados, porque a sabedoria é algo distinto da lógica. Daí se entende por que Fita Verde é bem o oposto de Chapeuzinho Vermelho: o universo ficcional de Rosa é busca e expressão da terceira margem: sua palavra promove uma “verdadeira desconstrução do discurso hegemônico da lógica ocidental”. Talvez porque, para ele, a vida é mais do que aquilo que pensamos ver no caminho, mais do que as aparentes e gastas realidades consideradas. Talvez porque, para um Guimarães Rosa, “a vida era à hora”.
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