A imagem de um
quebra-cabeças em construção me é muito instigante. Peças, peças, peças...
Partes unidas de tal modo que revelam uma tela Inteligível ao final, se todas as partes necessárias estiverem dentro da caixa.
Thomas Kuhn, em seu A estrutura
das revoluções científicas, chama a atenção para o quebra-cabeças das
questões científicas em que as peças são as regras e os passos para a solução
de uma questão.
Mas o que acontece ao cientista, frente à intenção
de montar um dado quebra-cabeças, se as suas peças se encontram misturadas com
outras de disciplinas diversas da sua? Ele “será colocado em xeque”, porque não
há solução possível juntando-se as peças de uma só caixa. Em outras palavras,
não há solução possível àquele que não se dispuser a entender que as peças para
aquele problema se encontram em mais de uma caixa. Logo, se aquelas partes
encontradas são insuficientes para a conclusão do todo, diz Kuhn, o problema
estudado é rejeitado, porque a ciência normal não se dirige para as novidades.
É assim,
conclui o autor, que um paradigma pode afastar uma comunidade dos problemas
sociais importantes que não são redutíveis à forma de quebra-cabeças –
entendido como um todo dividido num número “x” de peças, nem uma a mais ou a
menos.
Felizmente,
não é o fim do mundo: em dado momento, uma nova teoria surge justamente do
fracasso das anteriores e a crise abre espaço para um novo paradigma. Algumas
peças surgem, vindas de outras caixas. Kuhn diz
ainda que também no desenvolvimento político, “como no científico, o sentimento
de funcionamento defeituoso, que pode levar à crise, é um pré-requisito para a
revolução”. Uma nova mirada torna-se possível, então, a partir do conflito com
as visões anteriores ou da aceitação de um fato novo, ou não mais negligenciado. É o pensar fora da caixa.
No sentido
figurado, usado no nosso cotidiano, a expressão "quebra-cabeça" significa “aquilo que preocupa, inquieta ou incomoda
alguém”, ou aquilo que configura um “problema complicado”, cheio de questões para a gente resolver. No quebra-cabeça das coisas da vida que buscamos entender, nas perguntas mais profundas e essenciais que precisamos fazer, as peças
para a construção de uma boa paisagem-resposta, do tipo que elucida, ilustra e consola, estão todas nas caixas que temos nas mãos? Será que estão?
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