sábado, 24 de fevereiro de 2018

O quebra-cabeça

A imagem de um quebra-cabeças em construção me é muito instigante. Peças, peças, peças... Partes unidas de tal modo que revelam uma tela Inteligível ao final, se todas as partes necessárias estiverem dentro da caixa.

Thomas Kuhn, em seu A estrutura das revoluções científicas, chama a atenção para o quebra-cabeças das questões científicas em que as peças são as regras e os passos para a solução de uma questão.

Mas o que acontece ao cientista, frente à intenção de montar um dado quebra-cabeças, se as suas peças se encontram misturadas com outras de disciplinas diversas da sua? Ele “será colocado em xeque”, porque não há solução possível juntando-se as peças de uma só caixa. Em outras palavras, não há solução possível àquele que não se dispuser a entender que as peças para aquele problema se encontram em mais de uma caixa. Logo, se aquelas partes encontradas são insuficientes para a conclusão do todo, diz Kuhn, o problema estudado é rejeitado, porque a ciência normal não se dirige para as novidades.

É assim, conclui o autor, que um paradigma pode afastar uma comunidade dos problemas sociais importantes que não são redutíveis à forma de quebra-cabeças – entendido como um todo dividido num número “x” de peças, nem uma a mais ou a menos.

Felizmente, não é o fim do mundo: em dado momento, uma nova teoria surge justamente do fracasso das anteriores e a crise abre espaço para um novo paradigma. Algumas peças surgem, vindas de outras caixas. Kuhn diz ainda que também no desenvolvimento político, “como no científico, o sentimento de funcionamento defeituoso, que pode levar à crise, é um pré-requisito para a revolução”. Uma nova mirada torna-se possível, então, a partir do conflito com as visões anteriores ou da aceitação de um fato novo, ou não mais negligenciado. É o pensar fora da caixa. 

No sentido figurado, usado no nosso cotidiano, a expressão "quebra-cabeça" significa “aquilo que preocupa, inquieta ou incomoda alguém”, ou aquilo que configura um “problema complicado”, cheio de questões para a gente resolver. No quebra-cabeça das coisas da vida que buscamos entender, nas perguntas mais profundas e essenciais que precisamos fazer, as peças para a construção de uma boa paisagem-resposta, do tipo que elucida, ilustra e consola, estão todas nas caixas que temos nas mãos? Será que estão?


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