O sair
à luz é um divisor de águas em nossas vidas. Enquanto não sai, as sombras projetadas
continuam a simular verdades, e os condicionamentos continuam agrilhoando o ser
numa clausura, como acontece com os prisioneiros no “Mito da caverna”, de Platão.
Aquele que se solta dos grilhões e, do lado de fora da caverna, contempla toda
uma imensa e fértil realidade, ao retornar com notícias tão frescas e altas será
mal compreendido pelos cativos que não desejam sair da mesmice e da costumeira escuridão.
Machado de Assis, grande conhecedor do homem, entendia plenamente essa condição
humana e disse bem: “Nós temos medo da luz, por isso a empanamos de fumo e
vapor”. É o que ainda fazemos, enclausurados em pensamentos sem asas e sem retinas,
cumprindo rotinas sem metas e sem claridades sublimadas.
A ideia
do iluminar-se é, como no mito, profundamente pessoal, não sendo séria se não
ocorrer no íntimo do indivíduo. A luz do interior de uma pessoa, por mais íntima
que essa pessoa nos seja, não poderá iluminar nossos pensamentos, ou modificar
nas bases a nossa maneira de pensar. Se queremos chegar à luz, será indispensável
o caminhar até ela, no nosso próprio túnel, com nossos próprios passos. Só poderemos
alcançá-la com o nosso andar, nosso olhar, nossa investigação – e mais: com nossa
intuição.
Se
saímos da prisão, em busca da luz, por mais nos encante, a verdade do outro que
está na vanguarda não pode nos satisfazer, pois, embora cative, não nos abrasa essencialmente
a alma. Não podendo o outro nos dar a sua luz, porque ela se incendiou em suas
ideias, segundo suas buscas e de acordo com o seu conhecimento singular, seus
exemplos coerentes podem ser para nós como um raio de luz, uma tocha que nos
ajudará numa parte mais nebulosa do caminho.
Caminhar
para a luz requer esforço pessoal no
exercício de limar e polir as retinas, despregando também dos nossos discursos os
discursos outros que não têm raízes em nós. Requer, assim, cuidadosa sondagem do
terreno em que os entendimentos se desconstroem e se reconstroem em nós, em
cada momento vivido.
Parece-me que o "Mito da Caverna", pela analogia que
tem com os processos de abertura e de renascimento intelectual, é e será sempre
atual. Os poetas, os religiosos, os filósofos, os estudiosos já falaram e falarão
dessa passagem da inconsciência para uma vida mais consciente, ou da ignorância
para a sabedoria. Muitos trarão notícias dela, como Cora Coralina, que nos lembra
que o saber a gente aprende com os
mestres e os livros, enquanto a sabedoria
a gente aprende é com a vida e com os humildes.” Sim, Coralina, porque
na humildade é que a lida mais belamente nos ensina.
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