sábado, 24 de fevereiro de 2018

No caminho para a luz


O sair à luz é um divisor de águas em nossas vidas. Enquanto não sai, as sombras projetadas continuam a simular verdades, e os condicionamentos continuam agrilhoando o ser numa clausura, como acontece com os prisioneiros no “Mito da caverna”, de Platão. Aquele que se solta dos grilhões e, do lado de fora da caverna, contempla toda uma imensa e fértil realidade, ao retornar com notícias tão frescas e altas será mal compreendido pelos cativos que não desejam sair da mesmice e da costumeira escuridão. Machado de Assis, grande conhecedor do homem, entendia plenamente essa condição humana e disse bem: “Nós temos medo da luz, por isso a empanamos de fumo e vapor”. É o que ainda fazemos, enclausurados em pensamentos sem asas e sem retinas, cumprindo rotinas sem metas e sem claridades sublimadas.

A ideia do iluminar-se é, como no mito, profundamente pessoal, não sendo séria se não ocorrer no íntimo do indivíduo. A luz do interior de uma pessoa, por mais íntima que essa pessoa nos seja, não poderá iluminar nossos pensamentos, ou modificar nas bases a nossa maneira de pensar. Se queremos chegar à luz, será indispensável o caminhar até ela, no nosso próprio túnel, com nossos próprios passos. Só poderemos alcançá-la com o nosso andar, nosso olhar, nossa investigação – e mais: com nossa intuição.

Se saímos da prisão, em busca da luz, por mais nos encante, a verdade do outro que está na vanguarda não pode nos satisfazer, pois, embora cative, não nos abrasa essencialmente a alma. Não podendo o outro nos dar a sua luz, porque ela se incendiou em suas ideias, segundo suas buscas e de acordo com o seu conhecimento singular, seus exemplos coerentes podem ser para nós como um raio de luz, uma tocha que nos ajudará numa parte mais nebulosa do caminho.

Caminhar para a luz requer esforço pessoal  no exercício de limar e polir as retinas, despregando também dos nossos discursos os discursos outros que não têm raízes em nós. Requer, assim, cuidadosa sondagem do terreno em que os entendimentos se desconstroem e se reconstroem em nós, em cada momento vivido.

Parece-me que o "Mito da Caverna", pela analogia que tem com os processos de abertura e de renascimento intelectual, é e será sempre atual. Os poetas, os religiosos, os filósofos, os estudiosos já falaram e falarão dessa passagem da inconsciência para uma vida mais consciente, ou da ignorância para a sabedoria. Muitos trarão notícias dela, como Cora Coralina, que nos lembra que o saber a gente aprende com os mestres e os livros, enquanto a sabedoria a gente aprende é com a vida e com os humildes.” Sim, Coralina, porque na humildade é que a lida mais belamente nos ensina.

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