Gozar a vida sem freio e sem limites, sem qualquer
preocupação com as consequências dos atos e sem dar satisfação a quem quer que
seja. Há quem muito se afinize com essa imersão no turbilhão agitado dos
prazeres, dizendo-se dono da própria vida, senhor do próprio nariz. Mas será
que se deixar levar pela emoção, pela sensação e pelo desejo, ao sabor das
circunstâncias, é mesmo ser livre?
Ser dono do próprio nariz é postura admirável e mesmo
natural e espontânea numa pessoa amadurecida. Acontece, porém, que muita gente
que se considera senhora de si costuma se aventurar facilmente por atalhos e
escolhas invariavelmente caprichosas. Nessa trilha, estão em ebulição sensações
diversas, certamente, mas que pouco ou nada acrescentarão em termos de
autoconhecimento, enquanto reforçarão o individualismo. Nessas veredas, muitas
pessoas se distanciam da construção da autonomia, aquele patamar que nos
permite iniciar a escalada da conquista da liberdade genuína. É que, não raro,
caindo no mundo acelerado para colecionar emoções, a pessoa acaba cedendo as
rédeas da vida a um ego ainda imaturo demais para o comando e direcionamento
dos passos no rumo da felicidade essencial. Embora enamorada da ideia de
liberdade (ideia, aliás, inata em nós), a pessoa caminha, na verdade, pela
precipitação e imaturidade, para uma espécie de prisão: a da cadeia lógica que
amarra causas e efeitos, ação e reação, já que com nossos pensamentos e
atitudes cada um constrói, inevitavelmente, o futuro para si. Ora, isso é muito
mais sério, complexo e completo do que chegar à maioridade, por exemplo, e se
achar, por isso, livre e sem limites – triste ilusão, se o mundo é sempre cheio
de fios e tramas causais que tecem suas esteiras de efeitos.
Conquistar verdadeiramente a liberdade é muito diferente de
dar ao ego o amplo controle da vida. Nossa movimentação no mundo gera
consequências leves, moderadas ou graves, e deixar-se levar prioritariamente
pela emoção é algo sensivelmente perigoso. Enquanto o ser amadurecido pensa e
pesa suas escolhas, seus passos, suas decisões, o ego inflamado dá de ombros,
tapa os ouvidos e escapa para suas aventuras, sem se dar conta de que a
liberdade, no mais profundo sentido do termo, agiganta suas asas e decola para
os mais fantásticos voos apenas quando a ordem de partida e o impulso de subida
nascem no seio de um coração suficientemente desperto para traçar com responsabilidade
os seus planos de voo.
Se sabemos desejar emoções e sensações, mas ainda não aprendemos
a analisar os sentimentos que delas nascem, faríamos melhor avaliando a realidade
da pequena envergadura das asas que agitamos. Pode ser atraente a ideia de cair
no mundo, bailando no ar como folha solta ao vento, pode ser apaixonante a
ideia de se enamorar do eterno canto das sereias, mas será bastante difícil e
doído o retorno a nós mesmos, quando já estivermos nos labirintos da ilusão. Dando
tudo ao presente, sem qualquer atenção aos valores éticos, ao sentimento de solidariedade
de que o mundo precisa e pelos quais é, no fundo, regido, sem atentar para a
necessidade interior de caminhar rumo à totalidade, a integralidade do ser,
enfim, alcançaremos alguma velocidade, mas altura nenhuma, nem conforto
psíquico nas chegadas – adiante, um vazio no peito esperará por aquele que só
viveu para as coisas exteriores. Se, por outro lado, aprendemos a refletir
sobre os efeitos das nossas escolhas, fazendo uso da empatia (que é o
colocar-se no lugar dos outros) e ouvindo a voz da consciência com humildade e sinceridade,
bem como aconselhando-nos com os mais experientes e mais sábios, caminharemos
como quem sabe francamente ser livre e autor feliz do próprio destino. É que por
meios assim nos capacitaremos para semear e colher, entre as infinitas delícias
do viver, aquelas sementes que se transformarão em flores e frutos ao longo do
caminho, e não em galhadas de espinhos.
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