Entrei numa nuvem musical. O solo de órgão, cobrindo de identidade a
música toda, lembrando de leve a “Suite nº 3 em Ré Maior”, de Johan Sebastian
Bach, segundo alguns, mexe, revolve, acaricia cada uma das fibras em minha
alma, que então deram para pulsar, calando meu pensamento agitado. É de uma
harmonia triste, sensivelmente bela, e tão marcante na música que, segundo li,
o tecladista Matthew Fischer reclamou juridicamente seus direitos autorais –
depois de muita disputa, foi reconhecida sua participação autoral, junto com a
do vocalista Gary Brooker, líder dos Procol Harum, e do letrista da banda,
Keith Reid.
Milhões de dólares e batalhas de lado, meu interesse está na riqueza dessa melodia, nem um pouco em questões judiciais, questões de ego ou mesmo da letra. Com meu inglês mais do que fajuto, não dei pela interpretação completa do tema antes de ser sequestrada pela melodia. Podemos imaginar, com as licenças literárias de ouvinte, se é que existe uma coisa dessas, que a história contada é a de um contato com a morte. Encontrei duas correntes de entendimento: o tema da morte de alguém por overdose, ou do fato mesmo de morrer. A palavra ‘pale’ significaria ‘palidez’, no primeiro caso, e ‘pala, ou paramento’, no segundo, o que liga o termo ao vestuário das vestais citadas em um dos versos. Francamente, a letra não me impressiona como a música, que poderia ser cantada com lá-lá-lá-rá-rá-rá do início ao fim e continuaria belíssima para meu pouco entendimento, porque continuaria a satisfazer o meu coração e esse sentimento musical renovado que se agita com o movimento recente de novas sensibilidades musculares.
A melodia! Ah, a melodia! É, enfim, o que mais importa nessa canção. Estou falando de “A whiter shade of pale” (1967).
Gary, o belo Gary, empresta à música uma voz que, parece, não poderia ser melhor noivo nesse casamento tão perfeito. Os olhos falantes dele ainda sorriem hoje, no alto de seus 73 anos. Num concerto em 2006, na Dinamarca, sorriram no fim, embora se mantivessem fechados durante quase toda a canção, como que sentindo as emoções da trajetória de uma obra que completava, na época, 39 primaveras, e que figurara na 58º posição entre as 500 mais belas músicas de todos os tempos (2004, ranking da revista “Rolling Stones”).
O baterista foi outro sujeito feliz na trama: os toques, a marcação do ritmo, a preparação bem executada, prenunciando uma nota nova, uma frase forte, um tom diferenciado que então viriam. Alguma semelhança vê o vulgo encantado, como eu, entre o que ele faz e o que faz o baterista que acompanhou Elvis, em “Sylvia”. Meus ligamentos vibram da mesma forma em algumas passagens de ambas. São todas um primor, mas, plenamente seduzida, chego a ouvir “A whiter shade of pale” algumas vezes seguidas, mantendo os ouvidos atentos, ora à bateria, ora ao órgão, ora ao baixo. E muitas vezes a ouço só para ouvir Gary cantar, haha.
Essa música me arrebatou! Arrebatou-me para me mostrar alguma coisa preliminar sobre harmonia, trazendo consigo um instrumento cirúrgico invisível com que ressuscita minhas notas interiores, primárias, desafinadas, endurecidas e surdas para o belo. Bach dizia que a melodia cumpre a missão de “ligar a Terra aos Céus e os Céus à Terra”. Decerto, no concerto cósmico, e bem acima das músicas de minha predileção e arrebatamento, nascem e voam melodias superiormente mais sublimes, mas, no pé do monte onde me encontro, em desafio de longa subida, a música de que falo me arrebatou, parece, para desobstruir meus canais auditivos curtos, carentes e encerados de rotinas. Não a escuto apenas por ter ouvidos. Ouço-a com a alma que instantaneamente dança, sente, vibra, e feito bailarina e menina adentra por estrada nova de significantes e significados! Será isso um exercício? Um mergulho? Um ensaio? Um presente? Com George Harrison, que também tem vindo com sua “guitarra que chora suavemente” confabular comigo nestes tempos, eu cantarei: “I don't know, I don't know”. Eu não sei. Eu apenas sinto.
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